Enquanto eu dormia , o Dono da Noite me visitou.
Eu o vi , andando pelas sombras e pela fumaça ,vindo em minha direção a passos lentos e certos.
Senti medo , mas continuei ali , esperando por ele.
Até que chegou ao meu quarto , sentou-se em minha cama , alisou a minha cabeça e chamou por mim.
A sua voz era fria , sem emoção , sem vida ; falava baixo , pausadamente , como que escolhendo as palavras que usaria para mim , o seu alvo.
Eu o escutava com atenção ,tremendo dos pés à cabeça ,temendo que ele o percebesse.
Tendo ele falado-me, foi-se embora pelo mesmo caminho por onde viera.
Retornou às trevas , ao seu lar de fogo eterno!
E eu , pobre de mim , me vi confuso , sozinho , estranho, perdido.
Marcado!
Estigmatizado pelas malditas palavras e profecias do Príncipe.
Me senti queimado por um fogo estranho , ainda que me parecesse , de uma hora para a outra , familiar, e tudo passou a ser encarado com outros olhos , sob um outro prisma.
Os olhos...
Os meus olhos tornaram-se inexpressivos , frios , distantes , frios , calculistas , frios... só me importava com o que eu me importava e nada mais.
A família , os amigos , e as pessoas em geral ,já nao tinham tanta importância assim para mim...para ser sincero , nem sei se algum dia teve.
Comecei a vagar pela terra , como um ser sem destino , jogado à própria sorte ,em busca de algo que eu só viria a conhecer quando me deparasse com ele.
Então , há dois anos , eu o achei.
E eu experimentei , enfim , o que é viver!
Contudo , também , aprendi a chorar , e chorar muito , por amá-lo.
Numa de suas crises , ele me bateu , me ameaçou com uma faca.
Uma parte de mim , se apavorou ante a presença sombria da morte olhando para mim ; a outra parte , não me perguntem por quê , implorava por aquela faca raivosa , porque desejava que todo aquele sofrimento se cessasse de uma vez por todas.
Ele se foi , se foi para longe, e o seu corpo alimentou a terra.
Voltei a vagar pela terra.
Mas , agora , já não estava sozinho : um espectro acompanhava os meus passos, aparecia em meus sonhos, sussurrava em meus ouvidos.
Então , há dois meses , ele me achou.
E eu experimentei , de novo , o que é viver.
Tinha alguém com quem dormir ; alguém a quem esperar ; alguém de quem sentir falta ...a quem amar.
Mas, também, voltei a chorar, e chorar muito, por amá-lo.
Numa de suas muitas suspeitas, ele me bateu.
Me golpeou com as mesmas mãos que me acariciam com paixão!
E, assim, ele me feriu.
No corpo, me feriu ;na alma, me feriu.
As suas palavras inflamadas e malditas ,os seus xingamentos e as suas ofensas me feriram.
E , enquanto ele me batia , uma parte de mim se assustou com o repentino ódio em sua face ;
a outra parte desejou, com força , que ele ferisse mais, que me batesse mais, que me fizesse sangrar, que me destruísse ali, naquele momento.
Estava cansado de respirar, de amar, de chorar, de sofrer, de mentir !
Queria , e quero , dormir , fechar os meus olhos e dormir.
Me libertar desta cela de barro , onde me acho preso, acorrentado e atormentado.
Quero alimentar a terra com a minha carne : já lhe tenho dado de beber com as minhas lágrimas de homem angustiado!