quarta-feira, 11 de março de 2009

Mundo estranho


Mundo estranho, miragens em movimento sob o sol natural , vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor sem perceber qualquer falha , seguindo
sem cosmologias no universo circunstancial , acidental restando amorfo como este século de luzes
intermitentes , ou como quem erro de endereço indo ao lugar certo , ou devorando miragens
à margem de todo sentimento , em larga escala , em alta rotatividade , ou bancando um vinho forte para cada alma que sobrou dentro de sua cabeça depois do desastre.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Fractando - me


Ando a dois milímetros de mim
e isto é o mesmo que uma vida inteira
que eu atravesso sem eira nem beira
- onde o que eu sou não cabe mais em mim

e no futuro eu sempre procurava
este que agora sou desencontrado
mas não me via porque do passado
chegava um outro eu que me negava

vou pondo pedras nisto que era eu
incendiando um tempo irrevogável
sem ressarcir o dano

todo em lacunas sou o que me perdeu:
quem fui no meu futuro anda esquecido
daquele que vou ser no meu passado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Eles X Eu


Enquanto eu dormia , o Dono da Noite me visitou.
Eu o vi , andando pelas sombras e pela fumaça ,vindo em minha direção a passos lentos e certos.
Senti medo , mas continuei ali , esperando por ele.
Até que chegou ao meu quarto , sentou-se em minha cama , alisou a minha cabeça e chamou por mim.

A sua voz era fria , sem emoção , sem vida ; falava baixo , pausadamente , como que escolhendo as palavras que usaria para mim , o seu alvo.
Eu o escutava com atenção ,tremendo dos pés à cabeça ,temendo que ele o percebesse.
Tendo ele falado-me, foi-se embora pelo mesmo caminho por onde viera.
Retornou às trevas , ao seu lar de fogo eterno!
E eu , pobre de mim , me vi confuso , sozinho , estranho, perdido.
Marcado!

Estigmatizado pelas malditas palavras e profecias do Príncipe.
Me senti queimado por um fogo estranho , ainda que me parecesse , de uma hora para a outra , familiar, e tudo passou a ser encarado com outros olhos , sob um outro prisma.

Os olhos...
Os meus olhos tornaram-se inexpressivos , frios , distantes , frios , calculistas , frios... só me importava com o que eu me importava e nada mais.
A família , os amigos , e as pessoas em geral ,já nao tinham tanta importância assim para mim...para ser sincero , nem sei se algum dia teve.

Comecei a vagar pela terra , como um ser sem destino , jogado à própria sorte ,em busca de algo que eu só viria a conhecer quando me deparasse com ele.
Então , há dois anos , eu o achei.
E eu experimentei , enfim , o que é viver!
Contudo , também , aprendi a chorar , e chorar muito , por amá-lo.

Numa de suas crises , ele me bateu , me ameaçou com uma faca.
Uma parte de mim , se apavorou ante a presença sombria da morte olhando para mim ; a outra parte , não me perguntem por quê , implorava por aquela faca raivosa , porque desejava que todo aquele sofrimento se cessasse de uma vez por todas.

Ele se foi , se foi para longe, e o seu corpo alimentou a terra.
Voltei a vagar pela terra.
Mas , agora , já não estava sozinho : um espectro acompanhava os meus passos, aparecia em meus sonhos, sussurrava em meus ouvidos.
Então , há dois meses , ele me achou.
E eu experimentei , de novo , o que é viver.

Tinha alguém com quem dormir ; alguém a quem esperar ; alguém de quem sentir falta ...a quem amar.
Mas, também, voltei a chorar, e chorar muito, por amá-lo.
Numa de suas muitas suspeitas, ele me bateu.
Me golpeou com as mesmas mãos que me acariciam com paixão!
E, assim, ele me feriu.
No corpo, me feriu ;na alma, me feriu.
As suas palavras inflamadas e malditas ,os seus xingamentos e as suas ofensas me feriram.
E , enquanto ele me batia , uma parte de mim se assustou com o repentino ódio em sua face ;
a outra parte desejou, com força , que ele ferisse mais, que me batesse mais, que me fizesse sangrar, que me destruísse ali, naquele momento.
Estava cansado de respirar, de amar, de chorar, de sofrer, de mentir !

Queria , e quero , dormir , fechar os meus olhos e dormir.
Me libertar desta cela de barro , onde me acho preso, acorrentado e atormentado.
Quero alimentar a terra com a minha carne : já lhe tenho dado de beber com as minhas lágrimas de homem angustiado!